Um texto do dia dos pais...
Deus me deu um pai que eu não troco por nada no mundo, mas o
Amor me deu outros pais depois que nasci... dois deles, em especial... um, que
nessa vida veio como meu tio, e o outro, que veio um pouco antes de mim,
especialmente pra me receber... meu avô.
Tem umas duas semanas que eu não posto aqui no blog, mas
isso porque eu tava me preparando pra encarar essas coisas todas que insistem
em sair. É difícil as vezes, falar disso, porque o meu lado terreno fala bem
alto as vezes, e eu choro... enquanto minha alma se alegra...
Vovô... ele achava que não tava preparado pra me receber,
quando eu decidi vim, mas eu sabia que ele estava totalmente pronto e esperando
por mim. Ele se chateou, reclamou, se magoou... mas acho que isso foi assim, porque
ele não sabia que era Eu que tava voltando pra junto dele, na carne. Quando me
viu, algo dentro dele lembrou que era a Alma que ele tanto amava.
Meu avô nunca foi uma pessoa que fala muito, e alias, poucas
vezes ele falou comigo, pela boca... mas os olhos dele sempre disseram tudo pra
mim. Quando era criança, a única palavra que ele não soube dizer pra mim foi “não”.
Eu cheguei e pouco depois dei uns sustinhos no vovô. Acho que ele achou que já ia
fazer “a descoberta” de novo e deixar ele aqui, mas não fiz. Fiquei.
Tenho muitas lembranças da minha infância. Em especial de
momentos dos meus primeiros anos de vida. Acho isso um tanto curioso, porque
sei que os primeiros cinco anos de vida, normalmente são esquecidos pelas
crianças... mas por mim não. E em muitas
dessas lembranças, tava lá o vovô. Calado,com aquele sorriso besta nos lábios
(que ele sempre fez quando olhava pra mim), os olhos amarelos com tanto
significado de outras vidas, pra mim.
Eu falava com meu avô, mas as respostas dele, sempre vinha
em forma de sorriso ou de um beijo mandado pela ponta do dedo. Das poucas
coisas que o vovô dizia diretamente pra mim, tem uma que eu uso muito hoje,
pras Almas que mais amo: “princesa linda... a minha cara, principalmente o olho”.
E isso sempre vinha seguido de uma gargalhada dele e um sorrisão meu. Como eu
queria que os meus olhos fossem iguais aos do vô. Acho que não disse isso a
ele...
Existe um lugar em que me sinto livre de tudo. Pouca gente
sabe, mas é a água. Quando era guria e morava no sitio do vô (meu lugar
encantado), eu imaginava que dentro da água existia um reino só meu. Um mundo
inteiro pra mim, em que não existiam limites pra me prender no chão... e por
isso eu podia voar, entre o infinito e finito... e eu nadava por cima e por
baixo de tudo. Muita gente me viu brincando assim, mas acho que a única pessoa
que sabia realmente o que eu tava fazendo era o vovô, porque ele ficava horas
me vendo assim, com aquele sorriso maroto de quem sabia exatamente o que eu
tava pensando.
Foi o vovô que me
ensinou a voar no meu mundo. A primeira vez que nadei, ele vinha do meu lado,
igualzinho a um peixe boi... nadando devagar, mantendo um ritmo e praticamente
imerso no nosso mundo. Consigo reviver isso quantas vezes eu quiser. Tinha três
anos de idade, eu já nadava bem mas nunca tinha atravessado a piscina pra
chegar no fundo. Essa foi a primeira vez. Eu e o vovô... lado a lado. Lembro que
logo que saímos eu subi nas costas dele, e ele continuou nadando como se eu nem
estivesse lá. Faltando um metro pro fim da piscina eu pulei de volta na água e
nadei o que faltava, e quando vovô me olhou eu falei: “vô, cheguei primeiro que
o senhor”. Ele só concordou. Depois disso eu nadei, fui e voltei quantas vezes
quis na minha piscina, porque sabia que podia.
Nas férias, fins de semana e as vezes até durante a semana
mesmo, eu gostava de acordar cedo e ficava lá, sentada na beira da piscina,
vendo o vovô limpar. Ficava olhando pro fundo da água transparente (que pra mim
era azul) e pros olhos do vovô, esperando pelo momento que ele ia me olhar de
volta e com um aceno de cabeça me autorizar a pular. Ele sempre entrava comigo
depois. Eu grudava nas costas dele e ficava lá, e quando ele saia, eu ia junto,
pendurada igual a um macaco sem soltar meu avô. E vovô sempre lá, caladão, se
comunicando muito comigo, mas só com os olhos.
Acho que eu evitava usar a voz pra me comunicar com vovô...
tinha que falar alto pra ele ouvir e eu não
era muito boa disso, então sempre usei gestos, expressões e olhares com ele. Assim
tínhamos conversas longas... mas só nossas.
O vovô ficou doente. Não sei porque, mas eu não conseguia
enxergar o que ele tinha. Hoje parece tão obvio... mas eu não percebi. Só sabia
que ele era eterno e já ia ficar bom mesmo.
Por algum motivo muito estranho, umas duas vezes eu sai de
casa e fui pra lá... pro depósito de gaz do meu avô, só pra buscar ele pra
almoçar. Nesses dois dias eu e meu avô conversamos verbalmente. Ele tava
chateado... preocupado comigo e com meu irmão. Foi a primeira vez que ele
conversou comigo e me olhou e tratou como adulta... ele falou como se fala a um
adulto. Foi uma conversa que se repetiu milhares de vezes na minha cabeça e até
hoje me pergunto se um dia alguém devia saber o que falamos... mas acho que
não.
Um dia vovô foi pro hospital... nunca entendi porque. Ele é
de ferro.
Eu sempre ia lá, mas quando ele me via ele sorria só com os
lábios... era tão estranho. E quando ficava só nós dois ele dizia: “minha
doutora, tu vai se formar pra cuidar das pernas do vô.”
As pernas do vovô ficavam fininhas e eu nem percebia.
Um dia trocaram ele de hospital, ia fazer a cirurgia. Eu nem
tava preocupada. Ele ia ficar bom e voltar pra casa.
Até que um dia eu tive um sonho estranho. Eu tava no meu
quarto, quando vovô apareceu chorando do lado da minha cama. Eu
tentei perguntar o que tava acontecendo, mas ele saiu correndo em uma estrada
de terra looonga... e eu corri atrás. Tava preocupada, vovô tem problemas cardíacos
e não pode se cansar. Eu gritava e corria, mas ele não parava. Ele chorava. Até
que ele se rendeu e se jogou no chão. Eu alcancei vovô, em prantos também,
preocupada em ver ele assim. Reclamei um monte, falei que ele não podia fazer
essas coisas se quisesse ficar comigo, mas ele disse que não. Não mais... agora
podia fazer tudo e já não ia mais acontecer nada. Eu me assustei, mas ele tava
muito mais assustado que eu. Peguei ele no colo e falei que eu ia estar com ele
sempre. Até o fim. Ele sumiu. Eu fiquei chorando na estrada, gritando pelo meu
avô. Foi quando acordei. Só senti o quarto calmo, e fiquei esperando pela minha
prima, que eu já sabia que ia chegar... pra me dizer que o meu avô... já foi, ele tinha feito "a descoberta".
Eu chorei muito... mas senti vovô comigo nesse dia todo... e
no outro... e no outro... até que em outra noite, tive outro sonho. No meu
quarto de novo, mas dessa vez chovia, quando meu avô voltou a aparecer... agora
ele tava mais novo e com aquele sorriso besta no rosto, que ele fazia quando
olhava pra mim. Eu dei um pulo da cama e perguntei o que ele tava fazendo aqui,
se ele já tinha “ido”. A resposta dele foi um sorriso e “eu nunca vou te
deixar... com a gente é diferente, tu sabe princesa”, um sorrisinho sem
vergonha e uma piscadinha de segredo. Eu sorri pra ele. Entendi. E ele pulou da
minha janela, na chuva... e eu pulei atrás... a gente voou na água da chuva...
fazia frio... mas a gente sorria. Até que acordei, ouvindo a chuva na janela e
sentindo o gelado dentro do quarto. Foi a primeira manha em que acordei sem
chorar.
Depois disso, eu sempre sonho com o vovô... as vezes fico
muito tempo sem sonhar, mas nunca muito tempo sem senti-lo. E ele sempre diz : “seja
forte... você é. Estamos juntos do nosso jeito”.
O dia dos pais, sempre sinto falta dele em carne, porque
queria poder abraçar... mas talvez seja só um momento pra eu perceber, que o físico
nem é mais tão importante assim, quando nossas Almas são uma só a tanto tempo.
Nesse dia dos pais, eu fiz o que ele fez. Ensinei meu irmão
mais novo a nadar, mostrei pra ele o mundo que existe debaixo d’agua... e
chorei...
“as minhas lágrimas eu derramei... por saudade de você...
mas nelas eu fiz o que você me ensinou... eu nadei.” (Nayra “Rolim” Gomes)
O Amor é eterno... ele existe desde sempre e pra sempre...
ele é a essência, a Alma... somos nós, juntos.
Te Amo vovô, eu te vejo nos meus olhos.

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